A continuação da guerra de Chica


“Depois que fiquei cega e surda, iniciou-se um período longo e eterno de silêncio e solidão. Eu não havia nem ao menos completado a minha alfabetização, e repentinamente, vi-me obrigada a me comunicar através da escrita Braille.
À tarde, quando todos iam para as aulas, eu ficava sempre só e alguém ia me buscar nas horas das refeições. Pouco tempo depois, o professor Pedro Lucena Vaz, que até então estava viajando, passou a dedicar alguns momentos, todas as tardes, a me ajudar. Devo muito a esta alma boníssima que encorajava-me a ler bastante, mandava que eu fizesse composições, aconselhava-me. Ele era bibliotecário e professor de leitura. Graças a ele melhorei na escrita e passei a me interessar pelos livros.
Aprendi depois o alfabeto manual dos surdos com uma funcionária do Instituto que muito me ajudou. E assim, aos poucos, fui tomando contato com o mundo. Apesar do Braille e do alfabeto manual, muito dificilmente conseguia alguém que dedicasse um pouco do seu tempo para conversar comigo.
Muitos daqueles que me conhecem e me acompanham há vários anos, ainda não estão a par das coisas que me aconteceram. Passei por momentos difíceis após um mal estar que culminou com um desmaio, desmaio este que provocou um traumatismo. Em conseqüência, perdi o olfato e o paladar. Depois de me submeter a vários exames médicos, ficou constatado que, pelo menos no momento não há possibilidade de os recuperar.
       Não era nada fácil conviver com a dupla deficiência (cegueira e surdez) e agora passo a conviver com quatro deficiências. Nos primeiros dias pensei que não fosse suportar, mas, graças a minha imensa fé em Deus e graças à tudo que a vida me ensinou, estou conseguindo superar mais este golpe, apesar de que me sinto isolada do que nunca do mundo. O olfato era meu guia. Muitas coisas eu podia perceber através dele. Podia perceber cheiros familiares ou estranhos, podia perceber algum perigo como por exemplo um curto-circuito no ferro de passar roupa ou no chuveiro quando tomava banho, coisas que já me aconteceram.
      Mas não permiti que isso me abalasse de forma a me prejudicar no propósito de ajudar a meus companheiros.
      Quero levar às pessoas a minha mensagem. Quero que a sociedade entenda que nós, os deficientes, sofremos muitas discriminações, mas, se tivermos maiores chances poderemos mostrar do que somos capazes. O tempo está passando, a idade, a saúde e o ânimo já não são mais os mesmos, mas a vontade de ajudar meus companheiros é imensa. Outros virão após nós, e temos de abrir caminho para eles. “

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